
O OLHAR PARA A HISTÓRIA:
Há mais de quatro décadas, a Cabeções de Vila Prudente trazia para a Avenida Tiradentes aquele que seria o maior samba-enredo de sua História e do carnaval paulistano. Talvez, um dos sambas (se não "o") mais queridos entre os simpatizantes da tradição Iorubá, ultrapassando as fronteiras do estado e encantando até mesmo o bem sólido carnaval carioca.
Em busca de revisitar as suas raízes, a Cabeções retoma ao samba de 1981, de Dom Marcos, e faz uma releitura plástica atualizada para brindar à nova geração de sua comunidade com o passado glorioso e bem escrito pelos baluartes da verde e rosa mais tradicional do carnaval de São Paulo.
Para nós, caminhar, seguir em frente, não é sinônimo de esquecimento do que se plantou, e sim parte da naturalidade humana. Porém, em alguns momentos é preciso voltar os olhos ao passado para saber o quanto se caminhou sem fugir de sua missão. Assim, entendemos que ao resgatar a nossa História (sim, com H maiúsculo) é encontrarmos em nós, o sentido de tudo que nos moveu e nos move até aqui.
Vem aí a mais querida agremiação da Vila Prudente.
Avante Cabeções! Axé!
SINOPSE:
Contava o Domas (griot), durante antigos rituais, os feitos de um valente guerreiro, conhecido como Xangô; que ascendeu da realeza de Elempê ao Reino vasto e bélico de Oyó. Teria ele, recebido do Grande Pai, Obatalá, um encanto que lhe dava as condições de um homem viril, forte, conquistador e justo.
Contavam também sobre a sua sagacidade, imponência e beleza; requisitos que o levou a ser um homem desejado por várias mulheres, chamou a atenção da não menos bela e guerreira, Oyá. Uma mulher poderosa, rica e tão calorosa que seduziu ao rei dos trovões e com ele se casou; mesmo sendo ele, casado com outras mulheres, contrariando a tradição do amor.
Usando de analogia, conta o Domas, a passagem da alma de Xangô para o Orun plantando o seu corpo como uma semente no Ayê, assim que cansou-se de sua riqueza e, por fim, na Terra foi morar aos pés de uma pedreira.
Desde então, deixou o seu legado para os povos lorubás em diversas manifestações culturais e religiosas.
A sua memória tornou-se grande, como o seu legado. A persona do orixá Xangô Anganju é recebido sob as saudações dos lorubás: Kaô Kabecile! No Brasil é saudado nos terreiros e também invocado como Airá, dos raios e trovões; aquele que caminha junto à Oxalá. Em algumas localidades, Xangô é invocado como Baiani, uma figura feminina e, no entanto, na História, o vaidoso e menos bélico Alafin, irmão mais velho de Xangô, Dadá Ajacá, é lembrado (e cultuado) como Baiani em territórios lorubás.
Alafin de respeito foi deposto de seu trono e, Ajacá, ganhou de Xangô um pequeno e isolado território dentro das dimensões territoriais de Oyó, sob uma "baiani", personificada numa coroa com búzios pendurados.
Xangó Afonjá vibrante, colorido, festivo e dançante é visto na imagem de um explosivo e impetuoso orixá.
Uma outra imagem de Xangô é cultuada em territórios lorubás herdeiros de Oyó: um homem velho e vingativo, criado por lemanjá, carregando dois machados de dois lados conhecido oxês, identificado como Senhor Agodó (ou Ogodo).
Considerado um dos orixás mais festeiros entre os Odús, as festas de Xangô, nas antigas regiões de Oyó (atual Benin, Nigéria) tem como tradição uma grande roda com pessoas a dançar e reverenciar a virilidade do rei de Oyó.
Dançam sob o cântico de estribilhos e palmas, ao qual denomina-se bambaquerê. Alguidares de fogo são acesos para lembrar os tempos áureos de riqueza e fartura de Oyó. Do tempo em que os Alafins eram governadores de reinados prósperos e ousados, conquistadores com amplos exércitos.
E é no ritmado bambaquerê e bangulê que a Cabeções convida a todos a deixar o corpo se arrastar para o carnaval 2025 evocando os Alafins de Oyó.
Saudamos todos ao Xangô coroado!
Kao Kabecilê!
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