|
O Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Cacique do Parque, carinhosamente conhecido como a Tribo do Samba, é uma tradicional agremiação da Zona Sul de São Paulo, localizada entre as regiões do Parque Santo Antônio e do Jardim São Luís. Nascida da própria comunidade, a escola carrega em sua essência o papel social do samba e a resistência das pequenas agremiações de bairro da capital paulistana.
A história da agremiação começa a se desenhar muito antes de sua fundação oficial, remetendo à década de 1980. Naquela época, o Parque Santo Antônio ganhava destaque frequente nas páginas policiais por conta da violência e da criminalidade que marcavam a rotina do bairro. A atmosfera constante de tensão só dava trégua durante o Carnaval. O samba, seja em enredos ou em rodas após as tradicionais "peladas" de futebol de várzea, já se fazia presente no cotidiano local. Movido por essa paixão, um grupo de amigos formado por Antônio Junqueira, Marcos Siqueira Santos, Baiano e Dedé Alemão realizou uma vaquinha para comprar os primeiros instrumentos de percussão. O projeto cresceu, atraiu jovens interessados em aprender sob a "lei do mais velho" — na qual os novatos primeiro assistiam para depois tocar — e transformou-se em um pequeno bloco de rua que arrastava os foliões, trazendo dias de harmonia e festa para a comunidade. Com o tempo, contudo, os fundadores seguiram caminhos diferentes, deixando adormecido o sonho de fundar uma escola de samba no bairro.
Entre os que permaneceram no mundo do samba estava José Antônio Junqueira, o Tonhão. Ele passou a frequentar grandes agremiações do Carnaval paulistano, como a Imperador do Ipiranga e, posteriormente, a Vai-Vai. Após um período afastado devido ao falecimento de sua irmã, Tonhão retornou ativamente à várzea local e uniu quatro pequenos times da região para fundar o "União Favela Irmãos Madrugada", popularmente conhecido como UFIM. O time mantinha uma rivalidade acirrada com o Real Atlético do Parque Santo Antônio, cujo mascote era um galo. Nas provocações entre as torcidas, os integrantes do UFIM costumavam brincar: "Não vem bancar de galo aqui, aqui é o Cacique, o dono do lugar!".
A forte ligação entre futebol e samba fez com que o UFIM logo adquirisse instrumentos para animar a torcida. Foi esse movimento que reaproximou Tonhão de seu antigo sonho por meio do projeto de percussão "Samba aí que eu quero ver", voltado para ensinar as crianças da comunidade. Instruídos a tocar os instrumentos do time, cerca de sessenta pré-adolescentes formaram uma bateria mirim com um swing diferenciado que chamava a atenção por onde passava. Em 2011, a escola de samba vizinha Boêmios da Vila, que retornava aos desfiles após dois anos de suspensão pela UESP, convidou a bateria do UFIM para representá-la na avenida devido a dificuldades em reunir componentes. Os jovens ritmistas aceitaram o desafio e garantiram a nota máxima no quesito para a agremiação vizinha.
No retorno desse desfile, tomados pelo êxtase do Carnaval, os jovens questionaram Tonhão sobre o motivo de representarem outras cores quando poderiam ter sua própria agremiação. O pedido resgatou a promessa da década de 1980. Inicialmente, Tonhão hesitou, mas a ideia ganhou força absoluta meses depois. Em 29 de outubro de 2011, durante uma festa do time que contava com a presença de ritmistas experientes da Nenê de Vila Matilde, Tonhão emocionou-se ao ver seus pupilos serem aplaudidos de pé por profissionais do samba. Impulsionado pelas memórias dos velhos amigos e pelo desejo dos meninos, ele subiu ao palco e anunciou, de surpresa, que a partir daquele momento o time de futebol também passava a ser a escola de samba Cacique do Parque. Apesar do ceticismo de muitos, que consideravam uma loucura a transformação de um time de várzea em agremiação carnavalesca, Tonhão vestiu a comunidade com as cores azul, vermelho e branco e assumiu a missão de colocar o Carnaval na rua.
Ao longo de seus anos de trajetória oficial, a escola enfrentou momentos de superação. Um dos mais duros revezes ocorreu com a perda de sua sede original no Sacolão das Artes, no Parque Santo Antônio. O espaço, utilizado para confeccionar alegorias e realizar ensaios, passou a ser gerido por outra administração. A comunidade novamente se uniu para salvar a escola: amigos e componentes guardaram esculturas e adereços em suas próprias casas até que a agremiação se reorganizasse e obtivesse um novo local cedido pela Fábrica de Cultura do Jardim São Luís, situada a poucos minutos da antiga quadra.
Essa resiliência gerou frutos históricos para a Tribo do Samba. No Carnaval de 2024, apresentando o enredo "O que que a Bahia tem? Vem, o Cacique vai te mostrar", a escola conquistou o primeiro título de sua história ao somar 179,7 pontos e vencer o Grupo de Acesso 3 de Bairros da UESP, garantindo a subida de divisão. Para o desfile seguinte, sob a assinatura do carnavalesco Gerard Paes e com o tema "Mata Minha Sede?", a escola levou à passarela da Vila Esperança uma reflexão sobre os desejos e sonhos humanos, contando com doze alas e cerca de 350 componentes que desfilaram com fantasias gratuitas produzidas com materiais reaproveitados de carnavais anteriores.
A força do Cacique do Parque se apoia na dedicação de figuras como Aline Perla, que atua em frentes diversas que vão desde a chefia do barracão e adereços até o bailado de passista, e no jovem casal de mestre-sala e porta-bandeira, Arthur Martins e Naiomy Pires, formados em projetos tradicionais de preservação da dança como o Cisne do Amanhã e as atividades da AMESPBEESP. Para Tonhão e toda a comunidade, ver a periferia unida, com vizinhos desfilando e sorrindo na avenida, coroa de êxito um sonho coletivo iniciado na década de 1980 e que hoje consolida a escola como um valioso instrumento de crescimento social no extremo sul de São Paulo.
|