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A avenida se faz terreiro pra receber o nosso baticum
É samba, é rito, é a ópera dos de preto
É noite de gira na casa de ogum
O luar é testemunha desse axé nesse chão que é consagrado
Ecoa um canto de beleza e fé, nosso congá está preparado
Pai nosso, ave maria ... uma reza prenuncia o nosso girar
Firma ponto, risca pemba; chama santo e orixá
Acende a vela, apaga o mundo, faz a erva defumar
A dançar, o brasil profundo agora vai manifestar
O batuque do atabaque espanta o mal e faz milagre
Barravento é o ataque contra os nossos inimigos
Na batida do ilu chega nosso preto velho
Cicatriza sem remédio, sapiência dos antigos
Sete flechas atravessam nossa festa de terreiro
Essas setas têm a força do caboclo brasileiro
Fortalece o nosso braço, encoraja nossa mente
No encosto dá um laço esse bravo boiadeiro
Liberdade e desatino costurando o destino
O futuro que obstino no dançar de um cigano
No gingado, simpatia; é do povo, é da bahia
A simpleza e a alegria são preceitos de baiano
Navega o marinheiro no agito desse mar
Dissipando a tempestade pra esse barco não virar
Criançada faz zoeira; na pureza, brincadeira
Faz do riso uma maneira de a vida renovar
Malandragem incorporada no romper da madrugada
Vem do morro, vem da lapa. salve a sua legião
É pilintra, é da navalha; seu feitiço é gargalhada
Dá cartada improvisada, faz do ocaso uma lição
Mil exus na encruzilhada, guardiões dessa quebrada
Tranca rua, tranca estrada fazem nossa proteção
Falanges que nos guiam para a estrada dessa vida
Sábia voz, mão estendida pra acalmar o coração
Orum aberto ilumina nossa gira
Revela o amor que está guardado em sete linhas
Força de orixá é fundamento que nos guia
Gira em nosso jacutá no bailar das energias
Um silêncio poderoso que acalanta o espírito
É a paz e o perdão de oxalá para o aflito
No balançar da palha, energia que trabalha
Sara alma, nunca falha. omulu está no rito
O decantar das mágoas regenera nossas almas
Evoluímos com nanã, a regente do infinito
O saber que vem da mata: estratégia, observância
Contra toda ignorância, oxóssi é flecha certeira
O fogo que educa, reordena e equilibra
No machado de xangô faz justiça verdadeira
Rasga o céu a tempestade no mover da ventania
Iansã é autoridade no poder da lei divina
O sagrado feminino irradiando acolhimento
É iemanjá mamãe serena transbordando nosso peito
O espelho que reflete o amor e a beleza
Brilha como rio d'oxum desaguando a riqueza
A lança e a espada cortam os planos inimigos
Tua arma é que nos guarda, faz abrir nossos caminhos
Pois tua força é o alicerce que sustenta esse terreiro
Ogunhê, meu pai ogum! saravá, santo guerreiro!
A gira se fecha, mas o axé ainda gira
Nas ruas, nas calungas, nas casas e na vida
Ele vaga pela noite, segue pelo dia
Não nos deixa andar só, o seu girar é nosso guia
No pescoço, um fio de contas, e no bolso, um patuá
Fé que fecha nosso corpo contra todo mau olhar
Gira no gingar da capoeira, vibra na pele da batida de primeira
Roda em qualquer folia afrobrasileira
Pra resistir junto à cultura popular
Está na compaixão, na caridade
No conceder do perdão, na irmandade
No olhar inocente da criança, na gentileza despretensiosa
No canto, no toque, na dança, na oração silenciosa
É o amor no peito que nos leva para a luz
É a força dessa umbanda em cortejo a aruanda
Com babá que nos conduz
É o elo da corrente; inquebrável, permanente
Faz de toda nossa gente um só corpo a desfilar
Na esperança de vencer, na certeza de sonhar
Hoje o nosso baticum vai ressoar até o céu
Faz da casa de ogum, gaviões da fiel
Saravá
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