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Apresentação do enredo
Em 2027, a Mocidade Alegre irá singrar mares nunca dantes navegados. A história da "Nau Catarineta" atravessou os séculos desde o período das grandes navegações portuguesas, ficando conhecida como um tipo de romance oral e popular denominado "xácara". A lenda narra a saga de uma embarcação, que ficou à deriva por sete anos e um dia, encarando a fome, o medo da morte e diversas tentações pelo caminho, sendo salva pela intercessão divina. Trazida da Europa para o Brasil, em especial no Nordeste, essa narrativa transformou-se na principal dramatização das provações e perigos enfrentados pelos marinheiros ibéricos nas travessias transatlânticas, servindo como uma metáfora profunda das incertezas e da fragilidade da condição humana diante da imensidão do oceano.
Ao narrar nossa história, convidamos a todos a se sentirem um marujo nessa travessia simbólica. A difícil viagem em seus sete anos perdidos representa a própria aflição humana e a busca por um porto seguro, traduzindo o eterno embate entre o sagrado e o profano. O aspecto mundano manifesta-se no desespero dos homens, que cogitam o canibalismo e enfrentam a tentação do Diabo (que surge em alto-mar oferecendo salvação em troca da alma dos marinheiros); já o divino se impõe pela resistência da fé, nas preces desesperadas e nos votos a Nossa Senhora da Guia, que culminam no milagre do destino final e na chegada ao sonhado porto.
Embora estudos apontem que o romance tenha sido inspirado em um fato histórico real — o trágico naufrágio da nau Santo Antônio em 1565 —, o nosso enredo opta por se afastar da rigidez documental. O espírito desse conto português ganha vida sob o olhar de um brincante nordestino. Deste modo, desprezamos a rigidez dos fatos, buscando o lúdico das vozes que recontam essa lenda em forma de repente e cordel. É uma narrativa tecida pelo imaginário popular, no qual o mar se torna o cenário de um embate primordial entre o sagrado e o profano, o medo e a coragem, o real e o poético.
Um dos registros mais emblemáticos da Nau na literatura brasileira foi realizado por Ariano Suassuna, no romance “A pedra do reino”, uma das obras mais representativas do movimento armorial, conhecido como uma vertente estética e artística que buscava fundir signos medievais às raízes da cultura popular nordestina, como a literatura de cordel, a xilogravura e os folguedos tradicionais. Sob essas inspirações, vestimos o manto armorial de Suassuna e Antônio Nóbrega para construir novos nordestes no carnaval brasileiro. Do mesmo modo como eles fizeram, também nos voltamos para a cultura popular como repositório artístico.
Atualmente, em Cabedelo (PB) e Canguaretama (RN), existem coletivos populares de fandango, marujada ou chegança, que se tornam os guardiões que mantêm viva essa fábula marítima. Com o toque do violão, do cavaquinho e do atabaque, a Catarineta transmuta-se em auto popular, assumindo novos contornos e cores. Inspirando-nos neles, buscamos retratar essa tão rica região brasileira para além dos estereótipos da seca e do sofrimento, afinal, nosso enredo se passa em alto mar. Vamos exaltar a glória de um Nordeste gigante, denso, poético, que inspira muitas artes e tradições. Com isso, reafirmam-se laços sagrados de crenças, consagrando a re-existência de uma gente que faz do impossível a sua maior prece.
Seja na voz de tantos autores ilustres ou no repente de mestres anônimos, a Nau Catarineta é espelho de que “navegar é preciso, viver não é preciso”. Como fizeram os antigos, se lançar na imensidão do mar é enfrentar todo o medo e a dúvida quando o horizonte parece distante. Mas quem é da Morada sabe: a tempestade não nos amedronta, pois somos guiados pela luz da nossa ancestralidade.
No balanço das águas tortuosas, a Mocidade Alegre fará do Anhembi o seu oceano, seguindo sua vocação de revelar ao mundo riquezas culturais do nosso país. A bordo da nossa fantástica embarcação faremos mais uma travessia épica, todos nós incorporados dos ritmos das cheganças e fandangos. Cientes de que se as águas são incertas, a nossa fé é o nosso porto seguro, sem temer os perigos que nos fazem maiores. Nenhum oceano é grande demais para os nossos sonhos, seremos guiados sempre pela bússola da vitória.
Preparem-se, vamos içar as velas, pois a nau vai zarpar!
SINOPSE
I. "Somos marinheiros dessa Nau Catarineta"
Boa noite, minha gente! A todos venho saudar,
Sou mestre da chegança e venho lhes contar,
Um relato de bravura que vai lhes espantar,
Prestem muita atenção nessa história de pasmar!
É lenda muito antiga, do tempo em que se navegava,
Cruzando o grande abismo que os mundos separava.
Diziam que uma grande nau, pelo ouro que carregava,
Piratas e tormentas, com bravura, enfrentava.
Passava mais de ano e dia, que iam a cruzar o mar,
Já não tinham o que comer, já não tinham que manjar.
A tripulação seguia à deriva, sem ter onde se amparar,
O desespero era tanto, que pensavam em se matar.
II. "A vida do marinheiro é uma vida de labor"
Sob as tábuas do convés, uma moça se escondia
Era uma tal Saloia, que com dois tipos convivia
O cozinheiro Ração que já nada mais servia
E o zelador Vassoura, que tudo via e sentia.
A cada novo sol, Ração nada tinha a preparar,
Com a fome de espanto, devoraram o rato e o cão,
Sola de sapato no molho serviu de refeição,
Até que na sorte decidiram comer o próprio capitão.
No meio de tal aflição, o capitão precisou agir,
Ordenou ao marujo mais forte que ao mastro fosse subir,
No mais alto que pôde, o norte não mais se via,
O gajeiro avistou a morte em vez da luz do dia,
Foi assim que num lampejo sua face se escurecia:
“Alvíssaras, meu capitão! Vejo terra no horizonte e até além,
Três moças sob um laranjal, como igual não há ninguém.
Vejo o brilho de muito ouro! Mas para o senhor lá chegar,
Haverá de ter um preço para me agradar.”
Revelou-se então o próprio diabo em voz de tentação e calma,
Para alcançar a terra só servia o tesouro daquela alma.
III. "Fazemos oração pra em nossa viagem termos a proteção"
O capitão ofereceu de tudo para contentar o forasteiro,
E com medo, a tripulação se estremeceu por inteiro,
Mas o cramunhão encarnado se mostrou mais traiçoeiro:
"Não quero ouro nem riqueza, nem a nau pra eu mandar
Quero a alma de todos para ao abismo eu os levar"
Em meio à adversidade, o Capitão não cedeu a tal heresia
Renegou o tal demônio e ao divino manto se valia
Toda a tripulação, num só ímpeto, se alvoroçou,
Levaram os joelhos ao chão, em forma de clamor:
“Nossa Senhora da Guia, todos os louvores tu deténs
Viemos pedir mil graças para sempre amém”.
Em uma verdadeira oração, pediam a soberana proteção
O tinhoso riu com raiva, sem piedade ou compaixão.
"Renego de ti, demônio que me veio aqui tentar,
Minha alma é só de Deus, meu corpo eu dou ao mar".
Antes que a alma do comandante o fundo do mar alcançasse,
Veio um anjo e a Nossa Senhora em socorro ao peregrino.
Rugiu o satanás vendo o tormento se esvair;
E, naquela mesma noite, a nau viu o porto reluzir.
IV. "Gritemos todos vitória, vitória meu capitão"
Muito tempo se passou, mas essa história antiga se guardou,
Pois em todos nós ainda ecoa esse apelo de sofrimento e dor.
Mesmo que as ondas da angústia tentem o peito naufragar,
Surge o sopro da esperança que nos faz navegar.
Foi assim que lá no Nordeste, a Nau se fez poesia.
Aos poucos se transformando em estandarte da alegria,
Virou canto de marujo, virou dança à beira-mar.
Nas cheganças, nos fandangos, vive sempre a navegar.
São lembranças que nos guiam para o sucesso que há de vir,
Nossa rota vai sendo traçada pelo sonho que persistir…
Pois enquanto houver um peito que se deixe emocionar,
Na memória do nosso povo, essa velha lenda sobreviverá.
Setorização
O enredo da Mocidade Alegre é representado como um auto popular nordestino, a sinopse foi escrita em forma de repente e cordel, com versos ritmados e rimados. Ao longo do seu desenvolvimento, nos baseamos no formato e nos personagens presentes na Barca de Cabedelo, na Paraíba. Por isso, utilizamos figuras típicas como o capitão de terra e mar, a jovem Saloia, o reverendo e os tipos cômicos Ração e Vassoura. Nas apresentações da nau, há sempre um comandante que dita o tom, rimando os versos e puxando as músicas de repertório do grupo. A cada setor, vamos narrando um dos momentos da lenda.
No primeiro setor, nossa aventura já começa em alto-mar, enfrentando tormentas, tempestades e grandes ondas em tom misterioso e aventureiro. Buscamos evocar a coragem de se lançar ao desconhecido e o peso de uma travessia que separa o Velho e o Novo Mundo. Durante os sete anos e um dia que seguiu à deriva, a Nau Catarineta encarou não só desafios climáticos, como também o ataque de piratas e corsários e dizem os delírios que até mesmo monstros marinhos. Defronte tantas intempéries, a tripulação começa a perder o prumo e se desesperar.
Passa noite e dia, passa dia e ano, mas a embarcação segue sem achar a terra firme no segundo setor da narrativa. Personagens populares como a jovem Saloia, o cozinheiro Ração e o zelador Vassoura vivem o limite da sanidade. A fome extrema leva a tripulação a consumir o que resta, como ratos e solas de sapato, até o ponto crítico de, em um sorteio aleatório, cogitarem devorar o próprio capitão. Num ato de desespero, o oficial manda um gajeiro subir no alto do mastro na busca de ver algum pedaço do continente. Percebendo o medo de todos, o próprio diabo se apossa do corpo do gajeiro e então oferece um pacto maligno: a terra firme em troca da alma de toda a tripulação.
Uma intensa negociação começa entre o capitão e o demônio no terceiro setor. Além de dizer que avistou a terra, a maligna criatura promete muitas riquezas e até mesmo três belas donzelas para o almirante. Sem temer o perigo e aquela tentação, o líder da navegação convence a todos a fazer uma prece, mas sem perspectiva e, na insistência demoníaca, o comandante prefere se jogar ao mar do que firmar o pacto. Mas antes que seu corpo afogue nas águas profundas, a intercessão divina acontece. Sob o manto de Nossa Senhora da Guia e o auxílio de um anjo, a nau vence o tormento e, finalmente, chega ao porto.
Mas a história não termina por aí. No quarto e último setor, a Nau Catarineta desembarca simbolicamente nas areias do nordeste brasileiro. Nosso repentista lembra como a lenda serviu de inspiração para tantos poetas, seja os armoriais Suassuna e Nóbrega, como os artistas populares das Cheganças, Fandangos e Marujadas, principalmente em Cabedelo e Canguaretama. Misturando a estética popular, encerramos nosso desfile tendo a ancestralidade como bússola e a busca por mais um título.
Outras informações relevantes
Origem da Nau Catarineta — A Nau Catarineta tem sua gênese no romanceiro medieval português, surgindo sob a forma de xácara, um poema narrativo oral. A versão mais aceita associa a lenda ao naufrágio real da nau Santo António em 1565. Popularmente, o nome "Catrineta" (ou Catarineta) seria uma alcunha carinhosa dada ao navio devido ao talhe elegante e às formas arredondadas do seu casco.
Movimento Armorial — Lançado oficialmente em 1970, o Movimento Armorial buscou criar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares. Seu foco norteador é elevar a cultura do povo, como o cordel, a xilogravura e a música de rabeca, ao mesmo patamar das artes clássicas, resistindo à homogeneização da indústria cultural estrangeira. O movimento defende que a identidade nacional autêntica reside na preservação e recriação de tradições ancestrais, especialmente as do sertão nordestino.
Ariano Suassuna — Ariano Suassuna (1927–2014) foi o mentor e principal idealizador do Movimento Armorial. Em sua vasta obra, que inclui o célebre Auto da Compadecida, ele utilizou o "romanceiro" popular como matéria-prima fundamental para a criação literária. No romance “A Pedra do Reino”, Suassuna integrou a Nau Catarineta como uma citação ilustrativa e um "maravilhoso romance-epopeico", reforçando a conexão mística entre a fidalguia sertaneja e as lendas luso-brasileiras.
Registros da Nau — A versão mais conhecida do romance foi registrada pelo poeta português Almeida Garrett em 1843, que a imortalizou no seu Romanceiro. No Brasil, a lenda foi documentada por nomes como Luís da Câmara Cascudo, que a classificou como um "auto popular tradicional", e Mário de Andrade, que registrou a Nau em suas missões folclóricas de 1938, na Paraíba. Para Mário de Andrade, a obra é uma ferramenta de manutenção da identidade que representa o confronto entre a bondade humana e as tentações diabólicas.
Barca de Cabedelo — Em Cabedelo, na Paraíba, a encenação da Nau é conhecida como "Barca", sendo considerada patrimônio imaterial do município, com liderança do Mestre Tadeu Patrício. A performance é dividida em quatro "Jornadas", sendo a primeira dedicada à "Libertação da Saloia", um enredo específico onde a tripulação resgata uma infanta que se escondia na embarcação. Atualmente, o grupo é um espaço de inclusão social, acolhendo mulheres, pessoas com deficiência e a comunidade LGBT+, unindo a tradição centenária às demandas da contemporaneidade.
Personagens da Nau — A tripulação é composta por uma hierarquia militar que inclui o Capitão-General, o Almirante, o Piloto e o Gajeiro. Um elemento essencial é a dupla cômica Ração (cozinheiro) e Vassoura (zelador), que atua como alívio satírico através de improvisos e críticas sociais. Além dos marujos, destacam-se figuras como o Padre Capelão, que abençoa a viagem, e a Saloia, personagem de grande destaque nas versões paraibanas.
Fandango de Canguaretama — O Fandango de Canguaretama, no Rio Grande do Norte, é uma performance cênica que envolve cerca de quarenta brincantes caracterizados como marinheiros. A brincadeira utiliza uma embarcação de sete metros montada sobre um eixo de automóvel, que é empurrada pela marujada durante os cortejos pelas ruas. Seu enredo, dividido em 19 partes, narra aventuras marítimas e provações, mantendo viva a memória de histórias que remontam aos tempos dos quilombos e cativeiros na região de Vila Flor.
Musicalidade — A musicalidade da Nau Catarineta não lembra forrós e baiões típicos do Nordeste. As canções misturam as origens portuguesas com um ritmo urbano e moderno, sem parecer aquele sertão antigo do interior. O grupo usa uma verdadeira "orquestra" com instrumentos de corda (como bandolim e violão, típicos do choro e do bolero) e vários tipos de percussão. As apresentações misturam quatro ritmos principais: a marcha militar, o samba animado, a valsa lenta e canções melodiosas. Algumas músicas possuem versos em formato de resposta e contra-canto, reforçando a ideia de coletividade do trabalho marítimo.
Referências bibliográficas
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-ANDRADE, Mário de. O Turista Aprendiz. Edição anotada por Telê Ancona Lopez e Tatiana Longo Figueiredo. Brasília: Iphan, 2015.
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-LIMA, Fernando de Castro Pires de. A “Nau Catrineta”: Ensaio de Interpretação Histórica. Porto: Portucalense Editora, 1954.
-MELLO, Roger. Nau Catarineta: Ilustrações sobre os versos populares da Nau Catarineta. Rio de Janeiro: Global, 2004.
-PAIVA, Ana Carolina. A Dinâmica das Duplas Cômicas no Universo Popular: os personagens Ração e Vassoura da Nau Catarineta. O Percevejo Online, v. 4, n. 2, 2013.
RIBEIRO, Fábio Henrique G. Performance musical na cultura popular contemporânea de João Pessoa/PB. Tese de Doutorado em Música — UFPB, João Pessoa, 2017.
SIMAS, Luiz Antônio. Almanaque Brasilidades: Um Inventário do Brasil Popular. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2018.
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